1008

25 Jun 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Rui Cerdeira Branco

DATA

20.10.2015

TÓPICOS

Maturidade, pedagogia e teste histórico

Raramente o vencedor foi tão fraco e a oposição natural tão forte ao ponto de esta, unida, poder propor-se à governação com maioria absoluta. Mas pode a esquerda unir-se? 

 

O facto de não haver ainda uma resposta inequívoca acresce ao conjunto de singularidades que o resultado eleitoral nos trouxe. Estamos em mares nunca dantes navegados. 

Face a isto o que esperar do dia seguinte?

Em condições normais, e atendendo à crescente deriva para a direita de PSD e CDS e à sua manifesta indisponibilidade em estabelecer uma relação minimamente cooperante com o PS ao longo da última legislatura, o PS remeter-se-ia à oposição sendo pressionado para, salvo manifesta e inaceitável provocação da direita, viabilizar as peças fundamentais para a existência de um governo estável.

Mas estamos em condições normais?

Em condições normais a esquerda do PS não tem mais de um milhão de votos. Em condições normais, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa não teriam passado a campanha a ser desafiados por um número expressivo de eleitores a pedirem-lhes que se comprometessem com um entendimento à esquerda. Em condições normais, a frente de direita não concorre coligada nem não passa uma parte importante da campanha a acenar com o papão de uma frente de esquerda para tentar captar eleitorado centrista.

Estamos então num cenário em que os partidos à nossa esquerda captaram mais novos eleitores do que o Partido Socialista, em que BE e CDU repetidamente anunciam que estão disponíveis para assumir responsabilidades governativas e em que é possível um acordo que ofereça uma maioria absoluta no parlamento. Neste cenário, não vejo como o PS pudesse remeter-se à situação acima descrita das “condições normais” sem tentar, empenhadamente, atingir o entendimento necessário para viabilizar um governo estável.

Por muito que a repetida indisponibilidade de CDU e BE em assumir responsabilidades governativas tenha atrofiado as mentes de muitos democratas ao longo das últimas décadas, e por mais que a progressiva fulanização mediática com a conversão das campanhas em corridas de cavalos imputadas aos líderes partidários tenha distorcido a imagem do nosso regime parlamentar de pendor semipresidencial, em Portugal, a legitimidade dos mandatos é soberana para determinar o governo. Tal como em quase toda a Europa.

Será desta?

Olhando friamente para a história, o cenário mais provável é o fracasso. Mas não estamos em 1917, nem em 1975. Isso fará diferença? O PS dispôs-se, e bem, a investir capital político pagando para ver e, naturalmente, disponibilizando-se para algumas cedências. Mas tudo dependerá precisamente das negociações que, recordo, não se fazem entre o PS e uma frente unida, mas entre o PS e duas outras forças políticas bem diferentes. 

E se falhar? 

Restará a relevância de se perceber se o fracasso eventual se fundará na lentidão do movimento de transformação que poderá estar, de facto, em curso, à esquerda do PS, ou se o exercício pouco mais foi do que uma manobra algo caricata para iludir uma mudança exigida por uma parte importante do eleitorado e à qual à esquerda não se consegue dar resposta.

Que governo de esquerda?

Pegando no exemplo dos nossos parceiros europeus, o melhor mecanismo para alcançar o nível de comprometimento, que o PS deverá exigir, alcança-se com uma coligação em que todos partilhem diretamente responsabilidades governativas. Se tal não for possível, a estabilidade política será necessariamente mais frágil ainda que admita que um acordo suficientemente cristalino e com mecanismos de adaptação à realidade incerta dos próximos anos possa vir a justificar a assunção da governação.

Será possível? Ou teremos de reconhecer que nos afastámos pouco das “condições normais”? Em breve saberemos.

 

AUTOR

Rui Cerdeira Branco

DATA

20.10.2015

TÓPICOS
Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1413
Maio 2019