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09 Dez 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Augusto Santos Silva

DATA

02.11.2015

TÓPICOS

Portugal precisa de um governo moderado

Portugal precisa de um governo moderado para reconstruir o tecido institucional e social que quatro anos e meio de radicalismo, entre 2011 e 2015, romperam perigosamente.

 

Só tornando a respeitar a Constituição e a honrar os compromissos do Estado com os pensionistas é que podemos restaurar a confiança nas instituições e nos contratos. Deixando de confundir desemprego com preguiça e proteção social com caridade é que podemos voltar a confiar no Estado Providência. Não é possível cuidar da autoridade do Estado se continuarmos a humilhar as chefias militares, a desaproveitar a estrutura diplomática, a nomear a bel-prazer sequazes e parceiros de blogue para altas funções públicas, a fazer de conta que fazemos concursos para depois impor os amigos. Não é possível atrair investimento qualificado se vendemos ao desbarato as empresas públicas e oferecemos vistos e regalias a quem apenas compra imobiliário. Poderia continuar indefinidamente. O ponto é este: é preciso acabar com o fanatismo ideológico, o preconceito, o experimentalismo, o radicalismo de quem quis romper, e rompeu, em áreas críticas, como na educação e na ciência, consensos laboriosamente construídos na democracia.

Portugal precisa de um governo moderado para enfrentar a situação muito difícil em que se encontra. O equilíbrio das contas públicas está por atingir: o défice orçamental de 2014 foi superior a 7% e o do primeiro semestre chegou próximo dos 5%; a dívida pública não parou de subir; o crescimento económico é anémico; o sistema bancário continua à beira do precipício. A direita achou e acha que o único caminho da consolidação orçamental é castigar a economia e tirar rendimento às pessoas. Viu-se no que isso dá. É preciso menos ideologia e mais realismo na condução da política orçamental, de modo a que se combinem o estímulo da economia por via da oferta e o estímulo da economia por via da procura.

Portugal precisa de um governo moderado para defender os interesses nacionais no quadro que melhor os serve, isto é, a União Europeia, a NATO e a CPLP. Um governo que recuse aventureirismos e golpes de bravata, mas aposte numa negociação séria, com oferta de garantias credíveis aos nossos parceiros e aliados e construção conjunta de soluções que a todos sirvam. 

Portugal precisa de um governo moderado para voltar a unir a sociedade portuguesa. Ela está hoje dividida, como mostra o resultado eleitoral. E a estratégia da direita, desde que finalmente percebeu que havia perdido a maioria absoluta, tem sido de cavar ainda mais as divisões. Mas o país precisa do contrário, precisa de mais diálogo e menos confrontação. Um governo moderado é o único capaz de liderar essa nova etapa.

Portugal precisa que a esquerda apoie um governo moderado e a esquerda precisa de demonstrar ao país que sabe construir e apoiar duradouramente um governo moderado. Precisa de mostrar pela prática quão injusta é a acusação, hoje tão propagada, de que apenas traz instabilidade e que continua presa dos idos de 1975. Um governo moderado apoiado pela esquerda e uma esquerda comprometida com esse apoio são a única maneira de concluir com êxito o processo que o 4 de outubro iniciou: a plena integração de todos os portugueses no sistema democrático europeu.

AUTOR

Augusto Santos Silva

DATA

02.11.2015

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EDIÇÃO Nº1414
Agosto 2019