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20 Maio 2019

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Sessão evocativa
Assembleia da República manifesta “gratidão eterna” a Mário Soares
AUTOR

Rui Solano de Almeida

DATA

11.01.2017

FOTOGRAFIA

Jorge Ferreira

Assembleia da República manifesta “gratidão eterna” a Mário Soares

A Assembleia da República aprovou hoje, por unanimidade, um voto de pesar pelo falecimento de Mário Soares, que morreu no passado sábado, em Lisboa, com 92 anos.

 

Os trabalhos da Assembleia da República começaram hoje com um voto de pesar pela morte de Mário Soares, proposto por Ferro Rodrigues e pela Mesa da Assembleia da República, consensualmente aprovado por todos os partidos representados no Parlamento, numa sessão que serviu também para homenagear o fundador do PS e ex-Presidente da República.

 

 

Voto de Pesar n.º 194/XIII
Pelo falecimento de Mário Soares

 

É com profundo pesar que a Assembleia da República assinala o falecimento de Mário Soares.

Com o seu desaparecimento assalta-nos um sentimento de perda. Mas o exemplo perdura.

A sua marca é demasiado grande para ser esquecida. Nela encontrarão as novas gerações a força e a inspiração para ultrapassarem os desafios e darem continuidade ao seu impressionante legado.

Um legado de coragem política, de patriotismo democrático e de abertura ao mundo.

Mário Soares abraçou desde cedo a política como vocação.

Enquanto jovem advogado destacou-se pela defesa de vários presos políticos.

As corajosas atividades de oposição à ditadura, já travadas ao lado de Maria de Jesus Barroso, valeram-lhe a prisão, a deportação e o exílio.

O lema de vida de Mário Soares foi sempre o mesmo: “só é vencido quem desiste de lutar”.

Em 1996, já tinha sido tudo: Ministro, Primeiro-Ministro, Presidente da República. E tinha o seu lugar na História.

Contudo, atento às tendências de cada momento histórico e curioso em relação às novas gerações, preferiu continuar a lutar e a pensar no futuro.

Lutou até ao fim, e com isso deixa-nos um exemplo ímpar de Cidadania Política.

Se a Política era a vocação de Mário Soares, a Liberdade era a sua causa.

Mário Soares tinha a intuição dos grandes políticos e a visão dos grandes estadistas.

Antecipava os grandes movimentos do seu tempo, e disso beneficiou o País, que assim melhor se posicionou perante os desafios da História.

Foi antifascista durante a ditadura, e anticolonialista quando a ditadura se dizia “orgulhosamente só”.

Desde o momento da sua chegada a Santa Apolónia, no “Comboio da Liberdade”, nunca perdeu de vista aquilo que era, para si, o essencial.

Procurou sempre liderar os acontecimentos, e o País inteiro acabou por apanhar o “Comboio da Liberdade”.

Como Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, honrou o parlamentarismo e a atividade parlamentar.

Na qualidade de Primeiro-Ministro, deixou as bases do Estado Social e a adesão à então Comunidade Económica Europeia.

Foi Presidente da República entre 1986 e 1996. Nessa qualidade, prestigiou o Estado português e influenciou o entendimento que temos hoje do cargo presidencial.

O Portugal democrático, tolerante e solidário; o País do mar, europeu e aberto ao mundo, é o País de Mário Soares.

Isso é reconhecido pelos portugueses e pelos países amigos e aliados de Portugal, como temos testemunhado ao longo destes dias.

Mário Soares era um democrata português, e nesse sentido um cidadão aberto ao mundo.

O Partido Socialista, força estruturante da democracia portuguesa, do qual era o militante número 1, foi fundado ainda durante o seu exílio.

Enquanto Secretário-Geral do PS, Mário Soares foi um dirigente influente da Internacional Socialista, o que viria a contribuir, de forma relevante, para o sucesso da democratização portuguesa e da integração europeia de Portugal.

Mas mesmo enquanto Secretário-Geral do PS, não hesitou em ficar quase só, para defender o seu pensamento sobre Portugal e sobre a democracia.

Na Presidência da República esteve atento aos movimentos sociais e aberto ao mundo das ideias e da cultura, com o qual teve sempre uma cumplicidade genuína.

Cometeu erros, certamente, mas sempre entendeu a política democrática como uma atividade apaixonante, feita de vitórias mas também de derrotas, assente em escolhas claras e convicções fortes.

Todos estiveram alguma vez ao lado dele e contra ele. Ao mesmo tempo, todos lhes reconhecem a lealdade com os adversários e a tolerância com a diferença.

Era laico, republicano e socialista, e ao mesmo tempo presidiu à Comissão de Liberdade Religiosa, porque sempre entendeu o pluralismo como um valor maior.

O seu exemplo de tolerância ajudou o País a unir-se e a reconciliar-se consigo mesmo, depois das tensões próprias de uma ditadura longa e do período revolucionário que se lhe seguiu.

Se hoje Portugal se distingue na Europa e no Mundo pelo seu grau de coesão nacional, muito o deve ao contributo liderante de Mário Soares.

O sentimento de perda é assim acompanhado por um sentimento de gratidão eterna.

 

Reunida em Sessão Plenária, a Assembleia da República assinala com tristeza o seu falecimento, transmitindo aos filhos, Isabel Soares e João Soares, Deputado à Assembleia da República, à sua família e a todo o Partido Socialista, o mais sentido pesar.

Palácio de São Bento, 11 de janeiro de 2017



Depois da leitura do voto de pesar, seguiu-se, em representação do Governo, a do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, usando também da palavra todos os grupos parlamentares. Ainda no decorrer da sessão evocativa de Mário Soares, foram sendo projetadas imagens do antigo chefe de Estado nas telas gigantes do hemiciclo em homenagem ao antigo Presidente da República.

 

 

 

 

AUTOR

Rui Solano de Almeida

DATA

11.01.2017

Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1412
Fevereiro 2019